Começo este post dizendo que menosprezei a criminalidade da maior cidade da África do Sul. Antes de ir para Joanesburgo li das mais variadas percepções de viajantes. Elas iam desde que a cidade não apresentava maiores riscos até de que era extremamente perigosa. Bom, eu vivo no Brasil, né? O que poderia acontecer lá que eu já não estivesse acostumada aqui? Enfim, vamos debater essas questões no que se refere à segurança e ao contraste social.

Apesar de ser o maior centro financeiro do continente africano, Joanesburgo atinge altos índices de pobreza e criminalidade. Por isso, meu primeiro alerta é para que você não acredite em sites os quais dizem que a cidade não é tão perigosa ou que basta ter os cuidados de segurança que teríamos em qualquer outro lugar. Se você for transitar por áreas mais turísticas – e aqui não estou falando de bairros nobres e sim de efetivos pontos turísticos – circularás por áreas nada amigáveis. Andar por Sandton e arredores não é ver a real Joburg!

O que saber antes de ir para Joanesburgo
O que saber antes de ir para Joanesburgo

O APARTHEID ACABOU?

A divisão está por todos os cantos em Joanesburgo. A começar pelo povo que, mesmo com o fim do Apartheid o percebe no cotidiano. Isso é tão nítido que bairros pobres e considerados perigosos são predominantemente habitados por pessoas da raça negra. Enquanto bairros de classe média e alta o predomínio é de pessoas da raça branca. Se você for nos grandes Shoppings verá uma minoria, ou nem verá pessoas negras. Já no centro, você não verá pessoas brancas.

Raros são os grupos de amigos e casais onde a identidade de cor seja distinta. Isso nada mais é do que o triste passado Sul-africano no presente de Joanesburgo. É difícil fazer esta análise, mas quero acreditar que essa disparidade ainda se dê em razão de que em termos históricos o fim do Apartheid é algo recente para que uma real mudança na mentalidade populacional em geral tivesse ocorrido. Pegue como exemplos países como Brasil e Estados Unidos cujas leis antidiscriminação racial são muito mais antigas e até hoje não nos livramos dele.

Centro de Joanesburgo
Centro de Joanesburgo

Pessoas de todo continente migram para Joanesburgo em busca de oportunidades. Ao mesmo tempo, pessoas sem oportunidades são as que mais vemos pelas ruas, principalmente na região central, Braamfontein e Mining District. Já Sandton, Rosebank e outros bairros residenciais apresentam uma outra realidade: áreas modernas, belíssimas construções arquitetônicas, planejamento e ruas limpas nas quais você não precisa competir com o lixo por um local para caminhar.

Sandton, Joanesburgo
Sandton, Joanesburgo

SENSAÇÃO DE INSEGURANÇA

A insegurança é sentida no ar. Não me lembro de ter relaxado um minuto por lá. Quando eu lia sobre a criminalidade de Joanesburgo achava que tiraria de letra por viver em Porto Alegre e estar acostumada com a criminalidade. Acredito que lá seja menos pior do que no Brasil apenas pelo quesito potencial de violência aplicado. Contudo, vi áreas urbanas que jamais vi por aqui: aglomeração de pessoas com sujeira, comércio, alimentos, barulho, consumidores de drogas, entre outros, dividindo o mesmo espaço. Impossível caminhar se bater nos outros.

Esse sentimento de insegurança nos é alimentado pelos próprios moradores, trabalhadores do comércio, do hostel e motoristas de App de transporte com quem conversamos. Eles sempre se mostram preocupados com a segurança do turista à primeira conversa. Ninguém te aconselha a andar sozinho. Para todos Joanesburgo é uma cidade perigosa.

Exemplos do que aconteceu comigo:

  1. Como disse no começo do post, eu subestimei Joanesburgo. Em razão do meu padrão low-cost de viagem fui de trem do aeroporto até o hostel. Eu sabia que deveria descer na Estação Park Station e caminhar uns 10 minutos até a hospedagem. Fácil, sim, desde que não seja sua primeira vez fazendo isso por lá. Saí por uma porta errada da estação e fui para o lado oposto do hostel em direção ao centro. Dito e feito, em 10 minutos já tinha sido assaltada. Sorte, mas sorte mesmo, que só arrancaram minha corrente e não toda minha bagagem com documentos, dinheiros e cartões, equipamentos de fotografia e roupas. Dupla falha minha, ir para o lado errado e estar com uma corrente, que era bijuteria, mas pouco interessava para eles naquele momento. Entrei assustada numa loja e pedi para usar o celular ali para ver o GPS. As pessoas me olhavam incrédulas, do tipo… coitada, não tem noção do perigo.
  2. Mudei o planejamento da viagem para fazer tudo aquilo que pensei visitar de ônibus ou a pé usando aplicativo de transporte – elevando significantemente o custo da viagem – pois o pessoal do hostel não me deixava sair sozinha ou usar o transporte público (já falo dele). Como exemplo, fui para o Museu do Apartheid, Soweto, Maboneng e outras áreas mais afastadas via aplicativo de transporte. Para visitar os pontos turísticos da região central comprei o passe do City SigthSeeing Red Tour Bus para evitar deslocamentos a pé entre os locais.
  3. Eu precisava comprar uma passagem para ir à Suazilândia. O Marvin, staff do Hostel, não me deixou ir sozinha comprá-la. Ele havia trabalhado a noite toda e ainda sim saiu comigo à procura da passagem. Não conseguimos achar nas lojas e tivemos que ir até a última opção que era no Park Station. Ele procurou o lugar de partida das vans dentro da estação e falou com o pessoal para obter informações sobre o funcionamento. No dia da viagem ele fez questão de voltar comigo até o Park Station para eu não andar sozinha e ficou lá até a hora da partida – mais uma vez de virada, após o término do expediente às 7h. Ele não me cobrou nada, fez porque estava realmente preocupado com a minha segurança e sou eternamente grata a ele. Talvez eu não tivesse ido à Suazilândia sem essa ajuda.
Marvin, staff do Hostel Once in Joburg
Marvin, staff do Hostel Once in Joburg

SISTEMA DE TRANSPORTE

Não conte com ele. O sistema de ônibus em Joanesburgo, além de ser difícil de entender e de toda questão da insegurança já relatada, oferece poucas linhas. Não atende toda a cidade. Mesclam-se com os táxis, que são na verdade vans que funcionam no mesmo esquema das lotações no Brasil.

Vans, chamadas de táxis em Joanesburgo
Vans, chamadas de táxis em Joanesburgo

Os táxis dominam o sistema de transportes de Joanesburgo. São uma opção barata de deslocamento (o preço varia conforme a distância do percurso). Vão até áreas mais afastadas do centro da cidade e, em razão da abundância, são uma opção rápida de locomoção para os locais. Turistas não têm o hábito de usá-las.

Estação de táxis
Estação de táxis
Interior de um Táxi de Joanesburgo
Interior de um Táxi de Joanesburgo

VALEU A PENA IR PARA JOANESBURGO?

Depende do seu objetivo. Ao passo que te assustei um pouco sobre Joanesburgo considero válida a ida para entender mais acerca da REALIDADE Sul-africana. A Cidade do Cabo é muito turística e cheias de opções maravilhosas de passeios. Assim, provavelmente você não sairá deste círculo de atividades para ver a “realidade”.

Não quero que você se iluda com postagens que dizem que Joanesburgo é segura. Não é. Talvez sejam de pessoas que ficaram limitadas aos bairros nobres onde não há nada turístico, como Sandton, o qual não passa de um bairro moderno. Se você está indo para lá por essas áreas, nem perca tempo… pois verás aquilo que estás acostumado a ver no Brasil.

Agora, ao andar pelo centro e arredores você será capaz de fazer esta análise social que tentei te passar uma ideia. Uma África do Sul mais verdadeira. Contudo, JAMAIS SE ARRISQUE SOZINHO POR LÁ. Como curiosa por realidades que sou, foi importantíssimo ir para Joanesburgo para ter esta noção. No entanto, caso você não procure este tipo de conhecimento, use seu tempo sem erro na Cidade do Cabo. Quanto mais tempo ficares por lá, melhor!

Post: Roteiro da Cidade do Cabo para quem ama natureza e aventuras

Vá ciente dessas questões para Joburg, ok?

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